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  • Psicólogo Pascoal Zani

Como a CNV - Comunicação Não-violenta pode melhorar os relacionamentos

O que o homem comunica

“A fruta não cai longe do pé”, diz o ditado popular.

Você é mais tímido ou extrovertido, está alegre ou triste, vivendo esta ou aquela situação, já passou por isso ou aquilo na vida? Saiba que tudo será comunicado de forma verbal ou não-verbal, estabelecendo na convivência padrões que podem ser saudáveis, mantendo o bem-estar. Ou insatisfatórios, cultivando ambiente conflitivo, depressão, ansiedade e outros desconfortos.


A comunicação agressiva

Quando duas ou mais pessoas estão interagindo haverá o encontro dos conteúdos de cada uma delas e as reações do que cada um interpreta sobre a fala do outro, sucessivamente.

Pode-se falar de violência em diversas formas e níveis, com agressores e vítimas. No ambiente profissional é comum que a alta competitividade e o estresse estimulem agressividade. No grupo de amigos ela pode se manifestar conforme os interesses. E mesmo nas famílias se pode perceber agressão em invalidações muito sutis, ironias depreciativas, nas brincadeiras que alguns garantem que não é bullying, na formação de crenças de incapacidade, manutenção de preconceitos, perda de identidade e autoestima de um dos pares ou filhos, conflitos entre cuidadores e outros modos subtendidos de agredir, ainda que não intencionais:

“Embora possamos não considerar violenta a maneira de falarmos, nossas palavras não raro induzem à mágoa e à dor, seja para os outros, seja para nós mesmos.” (Marshall Rosenberg)


O homem tem o poder de interromper o ciclo de agressividade aprendido

Perceber se a agressividade está ou não presente na forma de se comunicar é necessário, não para se resignar a ela, mas para buscar soluções.

O ser humano tem um grande diferencial frente aos demais animais e pode usá-lo quando decide amenizar seu sofrimento: a capacidade de parar, trazer à racionalidade o seu modo de ser e de se relacionar, que na maior das vezes vai acontecendo automaticamente.


A Comunicação Não-violenta começa dentro de si

“Seja a mudança que você quer ver no mundo.” Mahatma Gandhi.

Também conhecida como Comunicação Compassiva ou Colaborativa, a CNV, criada por Rosenberg, prima pela empatia, compreensão e cuidado com o outro.

Ela parte de si, pois seu primeiro passo é a autoconsciência, seguida pela regulação emocional: identificar os pensamentos, sentimentos e necessidades acerca de uma situação estressora. Também nas palavras do Grande Pacifista: “controlar minha ira e torná-la como o calor que é convertido em energia.”

O criador da Comunicação-compassiva

Muitos conhecem a história de Gandhi, o líder da “Não-violência”. Poucos conhecem Marshal Rosenberg, que se inspirou nele:

Era uma vez um garotinho de 9 anos recém-chegado a Detroit, EUA, com sua família. Ele aprendeu a paz, mas ficou três dias trancado em casa em razão de um conflito racial que matou mais de 40 pessoas. Na sequência foi apresentado na nova escola e apanhou logo depois da aula, por ter sobrenome judeu.

Desde então, passou a se fazer a seguinte pergunta: “O que nos permite permanecer sintonizados com nossa natureza compassiva até nas piores circunstâncias?” Esse menino cresceu, formou-se em Psicologia, foi aluno de Carl Rogers, elaborou os conceitos da CNV e os colocou em prática através de sua ONG (https://www.cnvc.org/), passando a atuar na mediação de conflitos e treinamentos para difusão do modelo.


Você decide: usar o poder das palavras para manter o ciclo da agressividade ou para fomentar a não-violência

“Nossas palavras, em vez de serem reações repetitivas e automáticas, tornam-se respostas conscientes, firmemente baseadas na consciência do que estamos percebendo, sentindo e desejando.” (Marshall Rosenberg)


Para interromper o ciclo da agressão é necessário se posicionar, enfrentar uma conversa difícil se for preciso e falar do que está mantendo sofrimento.


A CNV não visa fugir de conflitos, mas, sim, reduzir a violência. Por isso é chamada de “a linguagem do coração” e muitas vezes é simbolizada pela girafa, animal que possui o maior coração dentre os mamíferos terrestres.



Os 04 componentes da Comunicação-colaborativa


A CNV pressupõe primeiro praticar a autoconsciência e a Inteligência Emocional, para somente depois se expressar acerca de uma situação a ser resolvida, no modelo mental de 04 componentes que podem ser treinados:


a) Observação: sem julgar, entender a situação do outro; segregar o evento do pensamento que teve a respeito, mas expressar o fato concreto sem dizer a sua interpretação, pois há grande possibilidade de ser entendida como crítica;

b) Sentimento: manifestar a emoção sentida com o fato observado; caso não exista muita empatia, será apenas a técnica pela técnica, sem eficácia, não estará acontecendo a CNV;

c) Necessidade: manifestar a necessidade pessoal que não foi atendida na situação e que gerou o sentimento apresentado; é o momento de dizer com clareza de desejos e direitos que precisa que sejam respeitados;

d) Pedido: fazer um pedido específico, assertivo acerca do ocorrido ou para eventos futuros similares, indicando uma ação concreta; é preciso ser claro, direto e empático para que o outro saiba da sua intenção;


João e Maria brigam muito quando vão fazer o orçamento do mês. João identificou esse padrão e se questionou sobre o último encontro:

a) o que de fato aconteceu? b) que sentimentos tive? c) do que eu preciso? d) que pedido farei?

Seu roteiro básico será assim:

a) Observação: Maria, percebi que nós temos nos exaltado bastante quando fazemos o planejamento financeiro do mês;

b) Sentimento: isso tem me entristecido;

c) Necessidade: eu preciso pensar que nós somos capazes de discutir sem nos agredirmos quando discordamos;

d) Pedido: para mim é importante, por isso quero pedir que você e eu façamos um esforço, durante a discussão do orçamento, para dizer do que discordamos sem fazer pequenas ofensas, ironias e comentários depreciativos. O que você acha?


A sequência precisa ser no mesmo modelo mental, ou seja, mesmo que a outra pessoa não conheça essa forma de se comunicar, é possível lhe fazer as mesmas perguntas que guiou sua reflexão inicial, escutando as respostas e interagindo com atenção:


a) como você observou a situação, o que diria que de fato aconteceu?

b) como você se sentiu sobre isso?

c) qual necessidade sua não foi atendida?

d) que pedido específico você pode fazer sobre essa situação ou futuras?



A Comunicação Não-violenta traz bem-estar e estabilidade aos relacionamentos


Ela cria um ambiente acolhedor, podendo-se manter o canal de diálogo aberto para outras situações; a comunicação se torna mais clara, reduzindo a ansiedade; as pessoas se sentem mais respeitadas, aumentando a autoestima. Tais motivos, dentre outros, justificam o empenho em aplicá-la nos relacionamentos entre casais, colegas de profissão e grupos diversos.


“O exemplo de não violência do meu avô nunca teve a ver com passividade ou fraqueza. Na realidade, ele considerava a não-violência uma forma de nos tornarmos mais fortes” ... “Bapuji usou verdades transcendentais e orientações práticas para mudar o rumo da história. Agora está na hora de fazermos o mesmo”, diz Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi, se referindo ao avô.


O desafio é amplo, mas pode ser trazido para o dia-a-dia do trabalho, da escola do grupo de amigos, da família, do casal, dos filhos: quem ousará interromper o ciclo da violência para melhorar seus relacionamentos?



Indicações:


· Best-seller de Marshal Rosenberg, prefaciado pelo neto de Gandhi: “Comunicação Não-Violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais”

· “A virtude da raiva”. Livro de Arun Manilal Gandhi, neto de Gandhi, fundador e presidente do M K Gandhi, Instituto de Não-violência

· Filmes: “Gandhi” (de Richard Attenborough) e “The Making of the Mahatma” (de Shyam Benegal)


Psicólogo Pascoal Zani

CRP 08/04471

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